Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
7 min de leitura
Texto 17 – Na Era da IA, a Educação é Apenas uma Ilusão?
Estamos no meio de uma crise de princípios.
Publicado por
em 19 de março de 2025 (original aqui ou aqui)
Durante dois longos anos, os professores têm travado uma batalha de retaguarda contra a inteligência artificial. Trouxemos de volta os cadernos de prova e os testes presenciais, apelámos aos princípios éticos dos nossos alunos, usámos diversas plataformas — que mudam constantemente — na tentativa de apanhar os trapaceiros, apresentamos-lhes a IA como um complemento (e não um substituto) da sua aprendizagem e desenvolvemos tentativas cada vez mais desesperadas de “proteger” os nossos trabalhos contra a IA. Nada funcionou.
A grande maioria dos estudantes universitários utilizam agora um ou outro tipo de IA para fazerem os seus trabalhos. (E, falando seriamente, será que o leitor não faria o mesmo, se com o apertar de um botão aquele outro trabalho em atraso — que o leitor realmente nem entendia bem o que se queria ou com a qual não se preocupou muito — fosse milagrosamente escrito?)
Agora, ao que parece, os seus professores estão a seguir o mesmo caminho.
“É espantoso o valor que o professor dá ao meu trabalho”, disse-me recentemente um dos meus orientandos, que estava numa aula online. Pedi para ver um exemplo da reação do professor. O aluno mostrou-me os seus três últimos trabalhos. A opinião do professor, de facto, era substancial, escrito de forma clara, objetiva e encorajadora. Também era evidente que havia sido escrito pelo ChatGPT.
A verdade é que o aluno não ficou realmente surpreendido quando lhe contei as minhas suspeitas. Ele mesmo, admitiu timidamente, também usou o ChatGPT para escrever partes substanciais dos seus trabalhos.
Vou ser direto: não estamos a enfrentar uma crise de fraude no ensino. Estamos sim no centro de uma enorme crise de princípios, de valores.
Para compreender esta situação precisamos voltar a uma fria manhã de sexta-feira em fevereiro de 1989. Foi quando Vince McMahon, então CEO da World Wrestling Federation (WWF), testemunhou perante o Senado de Nova Jersey, tentando convencê-los de que a luta livre profissional não deveria, de facto, ser regulado pela comissão atlética do estado.
“É entretenimento”, disse-lhes McMahon, “é ilusão”. Embora essa “ilusão” fosse do conhecimento comum entre ‘os de dentro’ desde que a luta livre começou em tendas de circo no século XIX, o mundo da luta livre sempre afirmou aos de fora que se tratava de competições atléticas reais. No entanto, em meados da década de 1980, a WWF já estava cansada dos impostos, da fiscalização e da interferência dos estados nos seus ‘eventos desportivos’. Por isso, em 1985, Linda McMahon (esposa de Vince McMahon e atual secretária da educação do nosso país) testemunhou perante a Câmara dos Representantes da Pensilvânia: ‘Diferentemente dos boxeadores profissionais, os lutadores da luta livre não estão a disputar competições… Em vez disso, como os habilidosos atletas que você vê no circo ou no Harlem Globetrotters, os nossos atletas são profissionais bem treinados que… entretêm as pessoas.
No mundo da luta livre, isso ficou conhecido como “encenação” [kayfabe, no original]: todos — iniciados e leigos, participantes e plateia — sabiam que a luta livre era falsa, mas mesmo assim mergulhavam naquela encenação cheia de piscadelas e acenos de “autenticidade”. Essa suspensão da descrença criava, como Roland Barthes famosamente descreveu no seu ensaio de 1954 sobre a luta livre, o espetáculo perfeito: “O público não está minimamente interessado em saber se a luta é combinada ou não, e com razão; ele entrega-se à virtude primordial do espetáculo”. Barthes contrastava a luta livre com os desportos “autênticos”, como o boxe e o judo, para mostrar como a performance da luta livre nada tinha a ver com justiça ou esforço, nem mesmo com vencer ou perder: “A função do lutador não é vencer; é executar exatamente os movimentos que dele se esperam que sejam feitos”.
Então, vamos fazer uma experiência mental: o leitor consegue imaginar algum reitor de universidade a levantar-se e, por estar cansado da fiscalização e intromissão dos órgãos de credenciamento, declarar que os professores são simplesmente ‘profissionais que … entretêm as pessoas’ e que o que acontece em sala de aula ‘não tem nada a ver’ com ensino e aprendizagem, mas sim que a ‘função’ do professor e dos alunos ‘é apenas cumprir os rituais que se espera’ deles? Que tudo não passa de uma grande ‘ilusão’?
Claro que não. Supostamente, não há espaço para ilusão ou entretenimento no ensino superior, onde a vida da mente é sagrada, a moeda do reino é o conhecimento, e o único comprar e vender ocorre no mercado de ideias. Sim, alguns alunos podem fazer vigarice, e alguns professores podem atalhar caminho, mas o ensino superior não é um espetáculo de performance !
Mas se o leitor acredita nisto que acabo de dizer, então eu direi que na verdade não sei por onde é que tem andado nestes últimos dois longos anos. Provavelmente, não numa sala de aula.
Estava eu um dia destes a circular pela minha sala de aula, a observar os estudantes enquanto estes supostamente faziam uma rápida pesquisa online sobre uma pergunta que eu havia feito. Um aluno estava a jogar sudoku; o computador de outro aluno estava desligado (‘A bateria acabou’, foi o que me disse); outro aluno disse que não conseguia aceder à internet. Todos eles, eu sabia, entregariam excelentes trabalhos de reflexão sobre o tema assim que a aula terminasse. (Já mencionei que, com o apertar de um botão, a tarefa atrasada que o leitor realmente não entendeu ou com o qual não se importou é milagrosamente escrita?)
Mesmo assim, lá estava eu, a circular pela sala, elogiando as ideias dos alunos, incentivando-os a pensar mais profundamente, sugerindo palavras-chave alternativas e ideias para pesquisas futuras.
Na luta livre, eles chamar-me-iam “trouxa” de forma zombeteira: alguém que não entendia que tudo era encenado. Tudo o que eu realmente tinha que fazer era desempenhar o meu papel. E, por sua vez, os alunos desempenhariam o deles.
Estou bem ciente de que os alunos sempre fizeram trapaça e os professores sempre atalharam profissionalmente o seu caminho. É por isso que o sociólogo Willard Waller, quase cem anos atrás, via a sala de aula como um “estado de equilíbrio precário”. Mas, enquanto antes do ChatGPT eu acreditava que podíamos gerir essa situação, hoje percebo que não o podemos fazer.
Costumávamos dar por garantido que ensinar e aprender levava tempo. Era preciso tempo para um aluno ler, depois escrever um rascunho, receber o comentário do professor, discutir a tese, revê-la e, finalmente, entregar o trabalho e esperar para ver a nota do professor. A questão subjacente era sempre o tempo: tempo para ler, pensar, ensinar, escrever, responder. Em economia, isto é formalmente conhecido como a ‘doença dos custos de Baumol’: alguns processos não podem ser acelerados, como tocar um concerto de Mozart ou ensinar a relação entre o signo, o significante e o significado.
Sim, as pesquisas sugerem que provavelmente poderíamos acelerar um pouco o ensino, desenvolver e sistematizar as melhores práticas. Mas nenhum de nós pode simplesmente descarregar o que se quer aprender, como Neo em ‘Matrix’, e, 30 segundos depois, vê-lo aparecer na tela do computador.
Mas o ChatGPT pode.
E esse é exatamente o problema. Ele reduz todo o processo de ensino e aprendizagem (reflexivo, recursivo, cheio de esforço) a uma transação instantânea, eficiente e polida — sem luta, sem iteração, sem atrito. Cria a ilusão performativa perfeita de ensino e aprendizagem.
O atrito de ensinar e aprender — desde o meu trabalho académico de preparar aulas até aos alunos me ouvirem e depois escreverem sobre o assunto — foi suavizado instantaneamente.
E assim ficamos presos na encenação, no kayfabe (no fingir que), impulsionados pelo ChatGPT.
Não há um final feliz aqui. Uma espiral de desmotivação está sobre nós, com a IA a potencializar o desinteresse dos alunos pela aprendizagem e o desinvestimento dos professores em ensinar.
Antes de concluir, deixem-me contar o que aconteceu quando eu terminava este ensaio.
Tive uma reunião no Zoom com um aluno do primeiro ano que claramente utilizou IA num dos seus trabalhos. Os seus trabalhos anteriores tinham um estilo e tom agradáveis, porém vagos, e a profundidade era o que se esperaria de alguém recém-saído do ensino secundário. No entanto, o seu trabalho mais recente estava impecável, claro e substancial, usando linguagem e conceitos que eu esperaria dos meus alunos de pós-graduação. Questionei-o sobre tudo isso, e ficou evidente que ele não conseguia explicar o que tinha escrito. (Ouvi-o digitando algumas palavras no computador e depois ler as explicações que apareciam.) Mesmo assim, ele resistiu a qualquer tipo de confissão. Ele alegou que estava a tentar escrever de um modo diferente; lembrou-me que o seu transtorno de défice de atenção e hiperatividade [TDAH] o fazia esquecer algumas palavras que usara antes; e, solenemente, explicou que os seus professores do ensino secundário lhe disseram para variar sempre o seu estilo.
Para ser sincero, era exasperante. Pedi-lhe que invertesse a situação e imaginasse que era o professor e um aluno apresentasse estilos de escritas completamente diferentes. Não desconfiaria ele também que havia algo estranho?
“Sim”, respondeu ele, “entendo o seu ponto de vista”. Mas, no caso dele, insistiu ele — olhando fixamente para mim, sem piscar, sem hesitar, sem constrangimento, sem suar, sem pausa — que tudo era absolutamente da sua própria autoria.
Foi uma performance perfeita.
E sabem o que eu fiz? Olhando fixamente para ele, sem piscar, sem hesitar, sem constrangimento, sem suar, sem pausa, dei-lhe um A.
É o descomprometimento total.
Estou cansado de ser o ‘trouxa’, cansado de lutar pela autenticidade da sala de aula num mundo saturado de IA. Sim, ensinar foi sempre difícil, mas geralmente gratificante. E corrigir trabalhos, bem, como diz o ditado, somos pagos para isso. Mas agora, hoje, o trabalho emocional para tentar garantir que os meus alunos sejam ‘honestos’ sobre estarem ou não estarem a utilizar IA é simplesmente demasiado exaustivo.
Tento ler atentamente o trabalho dos meus alunos. É um dos poucos mecanismos que tenho para saber se estou a ensinar bem alguma coisa e se os meus alunos a estão a aprender. E, com o tempo, vejo os alunos mudarem as suas perspectivas, repensarem as suas suposições e terem esses momentos “aha”. É profundamente gratificante.
E, por favor, não me entendam mal. Eu fui um daqueles primeiros adeptos, repensando e revendo fundamentalmente todo o meu plano de ensino e práticas pedagógicas para aproveitar a IA como (sim, de facto!) um complemento à aprendizagem dos meus alunos.
Mas estou cansado. Se tudo é espetáculo e performativo, quem sou eu para sustentar o edifício que desmorona? Talvez eu deva simplesmente passar a utilizar o simulacro. Jean Baudrillard certamente desaprovaria: ‘O que tais máquinas oferecem’, escreveu ele sobre a inteligência artificial muito antes do ChatGPT ser um lampejo nos olhos de Sam Altman, ‘é o espetáculo do pensamento, e, ao manipulá-lo, as pessoas dedicam-se mais ao espetáculo do pensamento do que ao próprio pensamento.’
Mas este ‘espetáculo do pensamento’ é aquilo com que lido todos os dias. Será que o professor Baudrillard realmente perderia o seu tempo a corrigir um trabalho escrito por IA? Acho que não. Ele não é um ‘otário’. Ele simplesmente encolheria os ombros, abreviaria o seu trabalho e utilizaria a IA para o corrigir.
Assim, ficamos com uma decisão difícil nas mãos.
Poderíamos, de forma acanhada, aceitar uma capitulação compartilhada a uma lógica de conveniência, aceitando o espetáculo performativo do ‘entretenimento’. O problema, é claro, é que todos sabemos onde é que esse caminho nos leva, conforme o ensino superior avança cada vez mais em direção ao horizonte transacional, e o que fazemos — o difícil, porém recompensador atrito do ensino e aprendizagem — tornar-se-á então uma história inacreditável que os avós contam aos seus netos: Eu subia a ladeira para ir à escola, ia e voltava debaixo de uma tempestade de neve… e sim, eu lia um livro e escrevia um trabalho de seis páginas sobre ele.
Ou podemos aceitar, após dois longos anos, que estamos no meio de uma crise de princípios, enquanto o ChatGPT remove — de forma eficiente, sem esforço e instantânea — o coração e a alma do que torna o ensino e a aprendizagem verdadeiros.
Admito que, então, não fica claro o que é que irá acontecer. Mas estou ansioso por saber a vossa opinião.
__________
O autor: Dan Sarofian-Butin, doutorado, é Professor titular e deão fundador da Escola de Educação e Política Social do Merrimack College. É autor e editor de mais de 100 publicações académicas, incluindo sete livros, vários dos quais traduzidos para três línguas. Fez consultadoria, entre outros, ao Departamento de Educação dos EUA, à National Science Foundation e à American Association of Colleges & Universities (AAC&U). Durante seis anos consecutivos (2012-2018), foi um dos 200 melhores académicos de Educação de “presença pública”. Durante quase uma década, dirigiu o Center for Engaged Democracy, que se concentrou no desenvolvimento, coordenação e apoio a programas académicos focados no envolvimento da comunidade, amplamente definidos. A bolsa de estudos do Dr. Sarofian-Butin centra-se nos fundamentos sociais da educação, no envolvimento cívico e comunitário (três dos seus trabalhos estão entre os 20 documentos mais citados sobre aprendizagem de serviço nos últimos 70 anos) e na intersecção de tecnologia e pedagogia no ensino superior. Nos últimos dois anos, tornou-se obcecado pelo ChatGPT, argumentando apaixonadamente a favor, depois contra e depois novamente a favor. Ele está um pouco confuso (e exausto) com tudo isso. Antes de trabalhar no ensino superior, o Dr. Sarofian-Butin foi professor de Matemática e Ciências do ensino médio e Diretor Financeiro da Teach For America. O Dr. Sarofian-Butin tem uma licenciatura em Ciência da Gestão pelo MIT, um Mestrado em Educação Liberal pelo St.John’s College e um Doutoramento em Fundamentos Sociais da Educação pela Universidade da Virgínia.




